quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Senhor, oi, senhor!"

Era terça-feira, eu acordei na segunda às quatro e tantas da tarde e passei a madrugada em claro, não ia conseguir dormir de jeito nenhum, havia uma bela de uma apreensão dentro do meu peito, uma vontade louca de que o tempo passasse mais rápido do que aquele último ônibus que eu perdi - e ainda estou esperando - para que eu pudesse resolver os meus problemas.

Minha velha avó costumava me dizer que se um problema tem solução e a gente sabe a solução então não tem porque se preocupar, mas se um problema não tem solução nenhuma e nós já tentamos solucioná-lo então também não tem porque se preocupar, a bomba vai explodir de um jeito ou de outro. Tento levar a vida desse jeito, sem me preocupar.

Preocupar, pré ocupar, se ocupar previamente de algo... Preocupação é algo abstrato e inútil, não resolve nada, não serve a nada, talvez te dê uma úlcera de presente.

Às quatro e tantas da manhã eu peguei o telefone e liguei para a central de atendimento da CPTM, queria saber à que horas os trens começavam a funcionar.
"Às quatro horas, senhor."
"Ok, muito obrigado... Você sabe quando o metrô começa a funcionar também?"
"Vinte para às cinco, senhor." disse a mocinha do outro lado da linha. Me imaginei nesse emprego, passar a madrugada toda acordado esperando um telefonema que vai durar alguns minutos e ainda tirar um salário por mês. É o tipo de coisa que muitos diriam que é a minha cara, passar a madrugada na frente do computador, sentado, esperando. Até uma pedra daria conta de fazer isso. Mas não, obrigado.

Levantei da cadeira, desliguei o computador, coloquei uma roupa, peguei as moedinhas que estavam no pote de azeitonas e me coloquei no caminho em direção a estação Prefeito Saladino. Aquele típico frio das manhãs de Santo André, o vento que vem da Avenida dos Estados carregado de poeira, poluição e o delicioso cheiro daquele esgoto a céu aberto que eles insistem em chamar de Rio Tamanduateí.
O cheiro de esgoto me acorda, o ar frio entrando pelas minhas narinas trazendo consigo a fumaça da manhã e me queimando por dentro me ajudam a entender a situação na qual eu me encontro [dramatic mode on] é a definição do meu futuro, do meu próximo ano, da minha barba!

Nas próximas horas daquela terça-feira eu enfrentaria o inferno, compreenderia o que é de fato esperar por algo com uma corda no pescoço, a desconfortável sensação de saber que um espirro pode mudar seu futuro para todo e sempre. Não que os outros atos dos outros dias não sejam tão impactantes quanto o que aconteceu na terça.
Atravessar a rua e ser atropelado mudaria meu futuro, com certeza. Comer um ovo e pegar uma salmonela mudaria meu futuro também. Ganhar na mega sena mudaria meu futuro. Tropeçar num cachorro e ser mordido, comprar um sanduíche e ser roubado por um mendigo, dar dinheiro pra caridade. Tudo isso mudaria meu futuro de alguma maneira, somos humanos e não somos imunes às coisas que acontecem ao nosso redor por menor que sejam e por mais que pareçam não impactantes.
Se você vai passar por algo e esse algo não vai te mudar, então nem passe.

Atravessar a rua como se os carros fossem etéreos é uma maneira babaca de viver a vida, achar que você não vai ser atropelado, pensar que se você colocar o pé na faixa vai fazer todo mundo frear, é suicídio a prazo, é uma maneira de tentar morrer a cada dia, mas é a morte que da razão pra vida. Se fossemos eternos, seria tudo muito sem graça e provavelmente ainda estaríamos com a bunda de fora e lanças nas mãos, devemos a nossa evolução - física, mental, espiritual, tecnológica - à morte. Viva a morte então.
Mas não vim aqui falar disso.

Voltemos nossos relógios para alguns meses atrás, anos atrás... Lá estava eu em Taiwan, vivendo feliz, mas era época de alistamento militar aqui no Brasil, fui até o consulado do Brasil em Taiwan para ver se resolvia, mas não deu em nada. Voltei para o país, o prazo tinha passado, precisei esperar o ano seguinte, me alistei com dezoito para dezenove anos, meses depois vim para Santo André.
Fui chamado para a fase de seleção em Três Lagoas, viajei de Santo André à Três Lagoas para tentar resolver isso, pedi transferência pra cá e quando cheguei descobri que só iria me apresentar em Julho. Dia dez de Julho. Terça-feira.

Pois é, foi no terceiro dia dessa semana que eu finalmente fui ao exército, o oitavo batalhão da polícia do exército em São Paulo, perto ali do parque do ibirapuera, uma hora, quarenta minutos daqui lá. Não teve resultado no final, disseram para mim voltar dia vinte e depois voltar dia vinte e sete, tenho uma entrevista para fazer, testes físicos. Na teoria, mas só na teoria, eu já estou designado a servir. Adeus barba, adeus universidade - vou ter que trancar por um ano - e adeus vida social que eu não tenho.

Mas não foi sobre isso que eu vim falar também... Acontece que o texto já ficou longo o suficiente. Amanhã eu escrevo sobre o que eu ia escrever.