As asas dela se transformam, hora são de borboleta, hora são de anjo, mas mudam... Um morcego, uma coruja, mudam... Asas negras, medonhas... Voltam ao colorido da borboleta, ficam brancas de novo e antes mesmo de eu terminar de cozinhar o macarrão do almoço já são as asas de um demônio, vermelha e preta, com detalhes estranhos, feios, são largas, cobrem o corpo todo e ela as abre de uma vez só "É pra te espantar! Sai!" e eu saio.
Ela diz que essa inconstância é culpa minha e eu digo que é da natureza dela e eu nada tenho a ver com isso, no fim sabemos que a culpa é de ambos, da natureza dela e da minha própria insistência em manter tudo da maneira mais ordenada possível, a mania antiga de tentar entender tudo, deixar tudo claro.
Lembro-me de quando ela contou que no princípio dessa história tinha o costume de dizer a si mesma que um dia eu iria embora e não seria bom se envolver, o tempo passou e eu não fui. Cheguei a lugares que não chegaria sem companhia, conquistei uma meia dúzia de coisas as quais não conquistaria sem a presença marcante de um ser alado ao meu lado.
Seria, sim, mais fácil se eu fosse menos sentimental e ela menos inconstante. Seria, claro, mais fácil se eu desse ouvidos ao meu orgulho e jogasse ela pros tubarões "Corte as asas, jogue um feitiço, amarre os braços e arremesse-a dali ó!" ele sempre diz, apontando pra prancha.
Os dias amanhecem, anoitecem, o ciclo se fecha, se reinicia e nós seguimos, próximos, mas não mais juntos. "Liberdade" diz ela, eu chamaria de alguma outra coisa, mas a palavra me fugiu justo agora. A tensão é perceptível, estávamos exatamente no mesmo lugar que antes, navegando em círculos que por mais largos que fossem nos trariam - e futuramente nos trarão - aos mesmos lugares de sempre. Ciclo. Cíclico. Circular.
Navegação de alto mar, dando voltas, girando na órbita de algo que ainda não identificamos, eu insisto em dizer que é amor, mas quanto mais próximo vamos chegando mais me vem o medo do engano. Buscamos única e exclusivamente a felicidade, o pote de ouro no final do arco-iris, todo ser, humano ou não, quer isso.
"Hei! O convés está sujo..." disse eu, capitães dão ordens.
"Limpa..." disse ela, porque por trás de todo grande homem....
"Irei, mas tem meia dúzia de coisas suas ali, você precisa decidir o que você vai querer pegar e o que vai ser jogado fora, tem peso de mais no navio."
"Deixa que mais tarde eu faço isso, ainda estou um pouco dolorida desse desenho novo que fizeram em mim..." dizia ela, mostrando as costas com uma chave enorme marcada na pele.
E lá fui eu, escovão em uma mão, balde na outra, cara de tédio... Arruma daqui, tira destroço dali, puxa lixo pra cá, arrasta caixote pra lá, tira uns barris de cerveja do caminho "Que lindo você limpando o navio." não tinha ironia ali, juro pra mim mesmo que não tinha, demorei muito pra entender isso.
Paro a limpeza e me disparo a falar, peito carregado, muita coisa engasgada. Ela se desatenta, o timão está solto. Vento forte, eu fechado em mim, olhando no fundo de seus olhos, palavras, palavras, palavras, gritos, urros, tiros de canhão.
"Meu Deus! Uma tempestade!" Ela foi pega de surpresa, eu mudei de humor, o clima mudou, tudo mudou.
Mais uma situação tensa, mais uma corrente bravia a ser dominada, o navio treme e se chacoalha inteiro e eu com o máximo de força possível jogo ele para o lado contrário às pedras, ela se dependura numa corda e salta "Tchau, to indo..." fala baixinho, sem querer falar, fala pra dentro com medo de que as palavras sejam ouvidas, mas fala.
Solta a corda e quase cai nas pedras, eu tiro o navio da tempestade, amarro uma corda no pé e me jogo.
O timão? Foda-se.
Foda-se a direção, não aprendi a navegar sozinho, se é pra se afogar que me leve junto, o combinado era não desistir e se jogar me soa como fugir e segundo o Aurélio fugir não é sinônimo de lutar, nem nunca foi.
"Pega minha mão!" eu, pendurado, gritando.
"Não..." ela, solta, chorando.
"Pega! Eu já vi essa cena antes, não foi legal." eu, pendurado, gritando mais alto.
"Não importa, já fizemos de tudo, não tem mais solução." ela, começando a afundar, falando baixo como quem não quer se ouvir.
"Segura minha mão primeiro, a gente discute isso lá dentro!" eu, desesperado vendo o rochedo onde colidiríamos se eu não tomasse a direção.
Não se navega em linha reta, não se navega com rumo predefinido, não se decide pra onde vai, a mágica é manter o navio em cima da água, não deixar afundar. Não importam os métodos.
Ela pegou minha mão, agradeci aos deuses - todos eles - e nos puxei pra cima. Não seria fácil nos tirar dali, a corrente estava forte, o rochedo estava próximo, ela correu pra desarmar umas velas. Reduzir a velocidade. Eu voltei ao timão, joguei todo o pesa para bombordo, ouvi os estalos do navio inteiro, ele mesmo queria se chocar, era um suicídio naval. Tudo se dobra quando se tem vontade.
"Passou perto..."
"Muito..."
"Sabe o que eu acho?!"
"Não, não leio pensamentos."
"Acho que se nós tivéssemos mesmo feito de tudo, não estaríamos mais aqui."
"Eu te amo... Eu não quero te perder seu retardado."
"Eu sei... Eu prometi que eu ia lutar... Até o fim."
"Até a porra do fim!"