Eu estava voltando de Diadema, falei disso ontem, aqui!
Entrei no trólebus de volta, quase peguei o que ia sentido Ferrazópolis - ia fazer a piadinha marota do tipo "Quase me ferrei!" mas prefiro ficar quieto.
Acertei o trólebus dessa vez, peguei o que ia pra Santo André, entrei, sentei no assento preferencial... Sou velho e foda-se
O bicho começou a funcionar, fez aquele não barulho típico de um veículo elétrico, acho mágico isso e ao mesmo tempo um estupidez fodida da parte do ser humano. Temos tecnologia pra coisas tão fodas e ainda estamos usando gasolina, me sinto um primata quando penso nisso, mas ok, não é sobre as minhas divagações anarco-midio-sindico-pseudo-anti-capitalista...
Esse texto é sobre ela... Ela...
Ela entrou no trólebus, não tinha como não reparar. Não era uma figura altamente chamativa, mas cabelos loiros sempre chamam atenção, somados à olhos claros, fica ainda pior a coisa. Não tinha peitos, e ao perceber isso eu fiz uma conexão mental com a parte funcional do meu cérebro e lá do fundo veio a frase "Ela não deve ter mais do que quatorze anos." perdi o interesse totalmente, não nasci pra criar menininhas. Sério, não gosto de novinhas.
Eu tenho um limite de idade pautado na minha irmã mais nova. Não me sentiria feliz desejando uma menina mais nova que ela, me soa estranho, praticamente pedófilo. Mesmo sabendo que tem muita menina mais nova que ela e que já está transando há séculos... Não é moralismo ou nada do tipo, é só que eu tenho uma irmã, se vocês tiverem, irão entender.
Ela entrou... Vamos voltar à isso...
Ficou em pé na minha frente, me encarava vez ou outra, mastigava um maldito chiclete de morango, a desgraçada estava tão perto que dava pra sentir o cheiro daquilo toda vez que ela fazia uma bolha e ela insistia em explodir. Era proposital. E estava me incomodando.
Eu estava ocupado, minha cabeça viajava a mil por hora pensando na história do Super Oink - em breve vocês terão mais notícias - e em coisas mais banais como a mudança do nome do blog e a conjuntura política do Afeganistão.
O trólebus parou, meia dúzia desceu, duas dúzias entraram, ela chegou mais perto. Encostou no meu braço, me encarou com cara de "Hey! Desencosta!" e ficou ali. Ploc... Ploc... Ploc...
Aquele chiclete explodia e me tirava da minha concentração, não tinha mantra que me mantivesse ali.
A grávida que estava do meu lado se levantou, me pediu passagem e na parada seguinte ela desceu. Sentei no lugar da grávida, apoiei a cabeça na janela, voltei pra Lucolândia e lá fiquei.
Estava tudo lindo, eu era o capitão de um navio voador, o Aerohamster. Ele voava com o auxilio de um balão gigante, no melhor estilo zepelim, mas era um navio. Tinha timão para dar a direção para um lado e para o outro e hélices na parte de trás que o impulsionavam para frente ou para trás dependendo da situação. Eu voava com a minha tripulação por ares tranquilos em algum país imaginário distante e PLOC! O balão explodiu e tudo caiu.
"É proposital né?! Na real, você ta tentando me chamar atenção desde a hora que entrou..."
"É... *ploc* tô." e ainda teve a pachorra de balançar a cabeça com aquele ar de 'e dai?'.
"E você tem a pachorra de me dizer isso assim?" ela ficou com cara de confusão, nunca deve ter ouvido a palavra pachorra na vida e deve ter entendido cachorra, certeza.
"Cara de pau, pachorra é cara de pau..." eu precisava explicar e eu estava curioso. Sério. Nunca fui atacado dessa forma.
"É... *ploc* tenho." cara de tédio total, não dava pra ler a menina. Odeio quando isso acontece.
"Prazer... Lucas Casasco, ator, escritor, compositor, músico, repentista, ex-futuro-engenheiro, futuro embaixador, imperador, navegante, pirata, capitão de navio aos sábados e portador da barba mais ruiva dessa terra." falei rápido pra porra... Certeza que eu falei bem mais do que isso... Ela riu, surtiu efeito.
"Eu gostei da sua barba, chama atenção."
"E me faz parecer bem mais velho..."
"É, você deve ser uns oito ou nove anos mais velho que eu."
"Você tem onze?! Então não..."
"Não! Dezesseis!"
"Três anos... Ainda assim, você é muita nova pra mim."
"E você é homem..." fez uma cara de desdém misturada com nojo tão complexa e bem feita que me convenceu profundamente. Ok, ela era novinha, não tinha peitos, mas daqui uns anos talvez crescesse. Não os peitos! Ela... Ela em si.
"Ufa... Pode parecer arrogância e prepotência da minha parte, mas eu achei que você só queria meu corpo nu." ela riu de novo.
No fim eu descobri que ela estava indo se encontrar com a namorada na pista de skate de São Bernardo, reclamou da vida, do mundo injusto, do medo da família descobrir o caso, da escola, do sonho em ser designer. Riu das asneiras que eu falava, disse que gostou da ideia de um super herói cômico que fosse um homem porco e no fim desceu do trólebus da mesma maneira que entrou. Eu juro que fiquei meio perdido, eu reclamo das coisas pra caralho, acho ruim que todo mundo vive se trancando dentro do seu próprio mundo e eu estava fazendo exatamente isso hoje! Olha que loucura... É o ápice da hipocrisia humana. Talvez essa menina tenha vindo só pra me fazer rever meia dúzia de coisas, no fim eu voltei pra dentro de mim mesmo, consegui reerguer o balão, era só um rasgo.