Durante sete semanas choveu. Durante quarenta e nove dias meu navio ficou parado, jogado nas pedras, encalhado. Eu quem joguei ele lá. Eu quem desejei a destruição daquilo. Eu quem pedi. Não queria olhar pra trás, rumei o bicho em direção as pedras e me joguei de dentro dele, avisei a tripulação com uma hora de antecedência e quem quisesse que ficasse. Eu havia acabado de saltar quando ouvi o estrondo. Me joguei ao mar sem nada, queria afundar ali, ir lá pro fundo, ver se encontrava alguma coisa e voltar.
O navio se chocou contra as pedras, Ela de longe ouviu o barulho, sentiu o campo gravitacional que a prendia se desfazer, percebeu que tinha em mãos aquilo que ela sempre quis, a tão sonhada liberdade. Dessa vez a liberdade real, não basta ter asas se não se pode voar além de um certo limite. Respirou aliviada, sorriu, agora a vida era dela, estava em suas mãos, não havia mais um ponto no qual se prender, não havia mais alguém por quem sofrer um navio para manter navegando no curso correto ou num curso qualquer, havia só a sua vida. Única e exclusivamente, para ser vivida do jeito dEla...
Nesse meio tempo eu caia na água e me afundava. Encontrei uma sereia no meio do caminho, ela cantou, me encantou, me aprisionou um tempo. Me falava coisas sobre um futuro melhor, me contava de uma vida a qual eu deveria tentar viver, me auxiliou quando eu me perdi ali em meio à todo aquele caos que me tornei depois de abandonar o navio às pedras. A pequena sereia, filha de um tritão muito poderoso que vivia em algum lugar nesse imenso mar, me ensinou algumas coisas, aprendeu algumas coisas, sorriu por muitas coisas, sofreu por algumas poucas e me fez esquece-La. Meu velho pai já dizia que quando uma sereia canta, não há homem que não se perca. E eu me perdi. Me perdi naquele mar de cabelos revoltosos, danças e conversas. Mas todo encanto, por mais forte que seja, uma hora se quebra. E ninguém pode domar um Capitão apenas com palavras, promessas e paixão. Na verdade, nem com um mundo inteiro à oferecer se doma um Capitão. Um ser livre é livre por ter feito essa escolha e uma fez a tendo feito é difícil voltar ao estado de não-liberdade.
E em meio à toda aquela chuva que caia eu disse à pequena sereia que eu deveria partir. Eu tomei fôlego, eu respirei fundo, eu recuperei as minhas forças, graças à ela. E então parti de novo em direção ao meu navio. Contratei um baloneiro e lhe expliquei mais ou menos onde era que tinha encalhado, o homem me levou até lá e eu desci pelas cordas em direção ao convés. Durante quarenta e nove dias choveu, foram quarenta e nove dias de castigo ao casco, ao mastro e à toda a parte não só externa como também interna do navio. O casco estava fendido, havia limo e lodo por todo o navio. Dentro dele várias garrafas com mensagens deixadas pela tripulação e algumas outras trazidas por pombos. Havia um convite ali, eu estava sendo requisitado para uma missão, era a mesma companhia de sempre, requisitando os meus serviços. O navio estava destruído de mais para realizar qualquer tarefa, mas eu fui. Mandei sinais de fumaça para alertar a antiga tripulação de que o Hamster Voador estava de volta à ativa. Perdi uns dias pra concertar o casco, arrumar o mastro e costurar as velas, alguns dos antigos voltaram e quando tudo estava pronto, partimos.
E lá estava eu, fazendo o que devia ser feito. Na carta que me enviaram foi-me prometido um pequeno exército, um apoio extra caso eu precisasse, mas me enviaram menos da metade do contingente prometido, minha tripulação estava desfalcada, o exército que eu precisava não estava comigo e eis que no terceiro dia quando aparentemente nada iria dar certo meu contratante me informa que daquele ponto em diante eu iria precisar de reforços, mas ele não tinha como fornecer. Mas o Destino é sábio e sabe o que faz, na noite daquele dia Ela resolveu aparecer. Chegou voando como quem não quer nada com a vida e pousou, me disse que precisava conversar comigo, disse que a vida era algo maravilhoso, que a liberdade era realmente muito divertida, que não era chato viver a maneira a qual estava vivendo, mas - e lembrem-se que a única parte que importa de toda frase é a que vem depois do mas - a vida no meu navio era mais legal. Ela ria mais, se divertia mais e vivia melhor sabendo que estava ao meu lado, não que Ela fosse uma pessoa triste longe de mim, mas eu catalizava as reações boas - e ruins - que ela tinha. O que era alegria, ao meu lado se tornava felicidade, o que era afeto ao meu lado se tornava amor, todas as emoções boas aumentavam e as ruins aumentavam junto. A ira era mais irada, a raiva mais raivosa, o ódio mais odioso. Mas aquilo não importava naquele momento. Havia um dragão vindo em direção ao navio, o radar apitou, teríamos de resolver isso depois. Ela me ajudou a salvar o que restava daquela coisa velha e semi destruída na qual o meu navio tinha se transformado e requisitou seu lugar de volta à tripulação disse que ia me ajudar e quando eu parei pra olhar ela tinha conjurado por vontade própria o campo gravitacional que a prendia.
"Eu quero ser livre ao seu lado Capitão. Porque liberdade alguma paga o preço do amor..."
"Eu sei mulher, eu sei..."
E depois de um abraço de quinze segundos nós saímos da cabine, ela soltando bolas de fogo e cuspindo ácido e eu dando espadada pra todo lado, não era um dragão... Era um enxame.