segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

"Mais uma mentira."

Eu abandonei o timão, desci ao convés e anunciei a toda a tripulação sobre o novo não-plano de rota. A grande maioria saltou sob meu comando, alguns me chamaram de louco, outros disseram que era isso mesmo o que devia ser feito, me deram tapinhas no ombro ou abraços e ficaram por ali.
A carne salgada já estava no fim, a água doce já não existia mais, o próximo cais era distante como o fim do mundo e aparentemente não ventaria tão cedo.

A alta tecnologia sempre possibilitou que cada um dos seres que conviviam comigo dentro daquela nau pudessem ter seus próprios meios de transporte, estava lá porque queria, pelo tempo que queria, eram todos homens livres como deviam ser.
Tirei meu chapéu e estava prestes a me desfazer da minha barba também, me olhava no espelho e via o reflexo de um homem o qual eu deixara de ser anos atrás. Era a sombra de um ser estranho e entre a luz que batia ali e os reflexos das coisas que passavam ao redor eu vi nascer algo em mim o qual eu desconhecia.

Uma voz veio dos céus dizendo: "É hora de mudar pequeno gafanhoto. A vida é muito maior do que você imagina e você tem tempo apesar de não parecer. É hora de ser outro de novo. Levanta essa cabeça, deixa esse navio se chocar contra as pedras, lance-se ao mar, pare de tentar ficar por cima dele, submerja-se. Você já não é mais capitão de nau alguma, torne-se algo menor, torne-se algo mais real. Mas antes disso, volte. Volte ao seu porto original, volte aos grandes homens e mulheres do mar os quais te deram esse navio apelidado "Liberdade" e saibam que eles irão te ajudar na reconstrução de si mesmo. Há partes em você que precisam de um sério reparo. Volte..."

Eu olhei desconfiado em volta, era uma voz conhecida, de um homem mais velho e experiente, de alguém com mais conhecimento sobre a vida, o mar e todo o resto. Voltei ao timão, o navio agora ia na direção que deveria ir, contra as rochas. Alguns perguntaram o motivo e no segundo seguinte perceberam o quão boba era a pergunta. Eu me arrumei, peguei uma mochila, coloquei uma meia dúzia de coisas as quais talvez me fossem imprescindíveis, deixei a bússola ali, o sextante também, os mapas, as fotos, as jóias, o par de espadas. Disse adeus ao meu próprio navio e entendi o que ouvira há algumas eras "Só um ex-capitão sabe a dor de perder um navio."

Fui à beira do convés e saltei. No segundo que antecede o baque, nos momentos entre saltar e cair, eu li arranhado no casco do navio "Você me prendeu. Você me perdeu. Você me prendeu. Você me perdeu. Você me prendeu. Você me perdeu." e a água fria me entrou pelos ouvidos. Respirei fundo ali dentro, no mar de gente o oxigênio é vasto. Olhei em volta e vi a placa "Ex-homens do mar, para lá" e uma seta.
Segui.
Estou no meio do caminho agora e não faço ideia de onde isso vai dar.