Você acorda às duas da tarde - ou quase. Pela casa ecoa-se Cazuza, a sua cabeça dói e você grita, ainda na sua cama, ao ouvir o barulho de bebida enchendo um copo:
"Que que você ta bebendo?!"
"Conhaque."
"Mas são duas da tarde cara!"
"É..."
Uma cabeça aparece na porta do seu quarto dizendo:
"Essa casa tem uma maldição... Quando um termina, todos terminam."
"Mas aquele ali é imune à isso." digo eu apontando para o cadáver do meu companheiro de quarto em sua cama atracado com a namorada, mal se sabe se a perna é de um ou do outro.
"Não tenho culpa de namorar uma princesa." e eu achando que ele estava dormindo.
"É, ele não tem culpa de namorar uma princesa." é quase um eco, vindo de algum lugar daquele bolo de cobertas, travesseiros, pernas e panos.
Eu retomo a conversa.
"Mas dessa vez acabou mesmo?"
E a cabeça falante lá da sala responde.
"É. Dessa vez acabou."
Ouve-se o som do copo enchendo de novo, o cheiro de cigarro invade meu quarto.
"Se afogar em conhaque e arrombar o pulmão com CO² não vai resolver..."
"E o que vai?"
Eu rio... "Essa é uma pergunta pra qual nenhum homem sabe a resposta... E meia dúzia até se matou em busca dela. O que eu sei é que encher a cara e fumar o pulmão inteiro não vai te desafogar."
O Cazuza continua com aquela língua presa falando suas merdas estranhas românticas.
A cabeça falante entra no quarto, eu peço um cigarro, ela joga o maço em cima de mim e o esqueiro. Acendo. Trago. A fumaça sai rapidamente do meu pulmão.
"Você não é fumante." diz o meu cérebro. Apago. Jogo dentro do copo com cinzas.
"Você sempre odiou essa mania besta de usar um copo com água como cinzeiro." diz meu cérebro, de novo.
A cabeça falante então começou a vomitar palavras, dizendo que agora não tinha mais volta, que as coisas não iriam mais ser como antes, que a ficha tinha caído, que não havia mais relacionamento entre eles e eu como o bom pseudo-psicólogo que sou simplesmente balanço a cabeça e digo que desistir não é uma opção, nunca foi. As coisas caem. O chão começa a tremer, o teto começa a querer desabar e em segundos as confissões de família começam a aparecer. Todas as merdas que foram feitas, as merdas que foram ditas, a confiança que nunca fora depositada em ninguém agora era arrancada de um cérebro e posicionada à minha frente.
O primeiro pensamento foi o de "Justo agora? Não dá pra ver que comigo a merda é a mesma? Acabou pra mim também parceiro, parece que passou um urubu gigante e cagou em cima da nossa casa..." e em seguida vem o real motivo pra tudo isso, dos confins do exoterismo e do espiritismo, do fim do fim do mundo, do abismo profundo onde saiam as ideias mais absurdas do universo "É finados cara... São os fantasmas dos mortos que voltaram para destruir os relacionamentos existentes."
Ele acende outro cigarro, eu pego o copo com o conhaque, um gole. Outro. Mais um.
"A vida vai seguir parceiro. A gente não vai ficar aqui ouvindo Cazuza e morrendo aos poucos, a vida vai seguir. Eu vou tomar um banho e ai a gente vai na padaria almoçar. A vida vai continuar. Chorar, fumar e beber não vai resolver nossos problemas."
Ele dizia que no começo não tinha como voltar pra casa e ver as coisas dela em seu quarto e eu disse que pra mim era pior porque as coisas Dela moravam no meu quarto, a minha cama era Dela, as calcinhas no banheiro, a folha sulfite escrita "Te amo gordinho!" em letras grandes de um canetão preto com um coração vermelho ali. Eram fragmentos, são fragmentos, são pedaços, quase restos.
"Eu vou sair mais cedo de casa hoje, ela disse que vai passar aqui pra pegar algumas coisas e não quer me ver, eu vou sair mais cedo pro teatro, talvez dar umas voltas na praça. A vida vai seguir."
E cabeça falante, com seus cabelos penteados e seu óculos de armação grossa se balançou pra frente e para trás como quem diz "Ok."
Eu entrei pro banho, ele continuou falando, eu sai do banho, coloquei uma roupa e fomos comer. Não há nada que uma cerveja, uma panqueca e um suco não possam dar cabo. Qualquer vazio no peito se desfaz quando o sol acerta seu rosto numa tarde de segunda-feira.