sexta-feira, 8 de junho de 2012

"Clarão."

Voltando ao que eu estava falando esses dias.

Ela me ligou e disse que viria até a minha casa buscar meia dúzia de coisas esquecidas. Camiseta, blusa, calcinha, livro, sempre tem alguma coisa, da outra vez foi igual. Quase igual.
"Daqui uma meia hora eu chego ai..." era o tempo de tomar um banho, trocar a roupa de cama, e dar uma leve arrumada no quarto. Velocidade cinco na dança da limpeza, ativar.

Limpei tudo, troquei o lençol, coloquei um branquinho que eu tinha buscado naquela mesma tarde na casa da tia que lava minhas roupas, tomei meu banho, dei uma recolhida no lixo que estava no chão. Ia bastar, a maior parte da ação acontece no escuro ou a meia luz. Estava ótimo, melhor que aquilo, só pagando pra fazerem.

Fui pra sala, sentei nos meus calcanhares, acendi uma vela e fiquei o resto do tempo ali, contemplado a chama da vela - tem quem reze, tem quem ore, tem quem toque uma punheta, eu simplesmente encaro a vela, cada um com a sua maneira de ser feliz.
Estava longe, praticamente dentro da vela, quando ouço o portão abrir. A minha casa vive cheia de gente e por isso vive aberta, ela sempre soube disso, então entra de uma vez, muitas vezes fazendo o máximo de barulho possível pra me tirar do transe imposto pelo computador ou por qualquer outra coisa. Abri a porta e dei de cara com a desgraçada.

"Oi, tudo b..." ela foi tragada pra dentro. Duas semanas sem vê-la ou mais, era muito tempo, mesmo depois de todos os rolos ainda tinha um fogo ali, uma conexãozinha maligna. Ela não foi convidada a entrar, foi intimada, puxada pra dentro, arremessada contra a parede e depois de uns quinze minutos de muita discussão filosófica eu olhei dentro dos olhos dela, coloquei a mão dela no meu peito e disse "Isso parece bem pra você?". Desse jeito mesmo, o mais clichê e piegas possível, esse sou eu! Rá!

A gente voltou a discutir filosofia política, joguei ela em uma das poltronas, ela me jogou de volta pra parede, a casa era nossa, um dos caras estava em minas, os outros três estavam em São Paulo e o sexto integrante nem existia ainda. O cachorro estava em São Paulo também, ficamos só nós dois e o hamster.
Dois seres humanos, uma sala, dois quartos, uma cozinha, quintal, sofás, mesinha de centro. Era uma dança embalada pelas discussões politico filosóficas e de repente eu fui jogado na poltrona. Ela estava ganhando a discussão e quando eu parei pra perceber, lá se tinha ido o primeiro round.

Ela pediu uns segundos pra respirar, foi até a cozinha caminhando daquele jeito sapeca de sempre. Eu olhava e tinha a melhor visão que um homem podia ter, gritei da minha poltrona que era para ela me trazer água, mal sabia eu que nesse momento a confusão iria começar. Começou, dentro dela e a desgraçada não externou o que devia ser externado naquela hora.

Ficamos uns minutos na sala conversando e eu a tratei como se fosse um câncer, ela era a pulga da orelha esquerda machucada do cachorro do vilão do filme mexicano que o tio avô de um velho e falecido colega do pai da minha tia costumava assistir aos domingos depois de ver o Linense perder o jogo, enquanto bebia Kaiser.

Carreguei ela por quarto, discutimos Kant, Marx e Nietzsche depois pedimos uma batata pra comer, ficamos ali remoendo um pedaço do nosso passado enquanto ela ia pegando ar sem que eu percebesse.
Me lembro muito bem de tê-la visto colocar System pra tocar antes de sair da minha casa, e lembro que no caminho entre a minha, nada nobre, residência e o ponto de ônibus não consegui extrair quase nada daquela mulher. E o pior é que de alguma maneira, pra mim, estava tudo certo.

Era a névoa, a neblina, alguma coisa ali que não me deixava ver um palmo a frente do meu nariz. Talvez fosse culpa da vela, talvez eu ainda estivesse enxergando só até onde ia o clarão e nada além.