sábado, 21 de abril de 2012

"O ponto final."

Seis e quinze e você resolve arrumar o quarto depois de passar a madrugada inteira conversando com a sua irmã, as coisas não fazem quase nenhum sentido às seis e quinze da manhã, o media player no aleatório dispara a tocar Martin Cererê com o Zeca Pagodinho, coisa sinistra. 
Você senta na cama, claro, pega o notebook nas mãos, abre o Chrome, da um control t, aperta d, aperta enter e se depara com o blogger aberto pra você poder escrever qualquer asneira e não da pra desperdiçar uma oportunidade dessas.

Abre o youtube, chama a Mallu pra cantar A Tonga da Mironga do Kabuletê e fica na paz por uns segundos e eis que de repente, como num lampejo místico vem o motivo de você ter caído aqui, você se lembra o que te fez parar de arrumar o quarto e vir escrever e pensa no quão incrível as coisas são e quão fácil é se distrair, uma música, alguns minutos no 9gag, a tonga da mironga do kabuletê ou até mesmo o latido do cachorro lá no quintal já é o suficiente pra te fazer esquecer os brincos colocados gentilmente em cima da mesa no canto do quarto, o par de meias que se destaca entre os seus por ser bem menor e bem menos encardido, a caneca que foi usada pra beber água na última noite de sexo. E você pouco se fode; por quinze segundos.

No começo da noite algo me despertou, me desesperou na verdade, uma música, meia dúzia de frases e lá se vai o Lucas machão e barbudo com aquela cara carrancuda que tromba com as pessoas na rua e já levanta o queixo como quem diz "Qual que é rapaz? O dia que você tiver de testosterona o que eu tenho de barba você vem me encarar!".

Uma música, meia dúzia de frases e ele volta, a criança estúpida e imatura que fica aqui dentro, infantil, mimado, chato, virgem com seus dezesseis anos, milhões de verdades, opiniões, nenhuma crença, nenhum porto que te ancore, nenhum deus que faça ajoelhar e claro que o seu cérebro em um momento de alerta apita com luzes vermelhas e um alarme que diz "Vá arrumar seu quarto agora! Livre-se de todos os pensamentos, volta! Acende uma vela, apaga a luz, senta no escuro, encara a vela e fica assim pelas próximas quatro horas, vai! Cadê aquele papo de auto controle agora? Cadê o rapaz que medita? Cadê o cara que toma banho frio no inverno? Cadê o macho? Cadê?! Acorda e arruma seu quarto."

E eu que não vou desobedecer meu cérebro, ele sempre soube o que é melhor pra mim e sempre me zoou da melhor forma também. As lições que ele me dá superam a de qualquer guru ou grande xamã e de repente ele bate, com mais força do que o habitual te fazendo levantar pra arrumar o quarto com o único intuito de te mostrar que nesse pequeno espaço de quatro paredes e alguns metros quadrados tem mais dela do que em sua própria casa, o lugar está sobrecarregado, meias, blusas, brincos, cheiros e se procurar bem é capaz de achar uma ou duas calcinhas em algum canto por aqui.
E por que fazer isso? Qual intuito do teu cérebro te mandar limpar o quarto sabendo que eu ias achar tudo isso?
Só pra jogar na minha cara quinze segundos depois que eu a esqueço com a mesma facilidade que lembro, pra me lembrar o porque disso tudo ter enfim chegado ao fim, para que eu possa entender que um relacionamento não se faz só de amor ou só de sexo ou de sexo e amor, ou só de qualquer coisa que você possa querer colocar, relacionamento se faz com presença. Sem presença, não existe relação e se ela não estava presente em você o tempo todo, então a relação já não existia havia um tempo.

Alguns podem achar isso triste, dizer que não é bem assim, mas no fim das contas nós sabíamos o que era melhor, destruir aquele castelo de cartas amareladas e velhas não era a única solução, podíamos tentar reconstruir, mas ia adiantar? Garanto que não. 

Ao menos não restou ódio nem mágoa, me resta um medo da indiferença que talvez nasça em algum ponto do meu corpo, me resta um medo de acordar e perceber que num único piscar de olhos ela se foi, eu me desintoxiquei, medo de esquecer algo que fui eu por todo esse tempo, o tempo de uma gestação.

Depois desse tempo nasceu algo sim. O fim.