quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O tédio e a barata



"Escolha se separar da família com 16 pra 17. Andar a pé por quilometras a fio em um lugar totalmente desconhecido. Chamar pessoas que você nunca viu antes na vida de pai, mãe, irmã e irmão. Escolha ter uma mala como guarda roupa, amigos de vários países, uma mesada de alguns dollares por mês. Escolha comer comidas estranhas, ouvir músicas estranhas, dançar danças estranhas. Escolha trocar o ano o qual você entraria na faculdade, por um ano em um país distante. Você não vai ter um diploma no final deste ano, mas será o melhor ano da sua vida. Bem vindo a vida de intercambio..."
Lucas Casasco.
Brasil - Taiwan.
2009 - 2010.
4470 - 3490.
Três Lagoas - Yuli.
Rotary Youth Exange Program...



Dito isso, começo a escrever. Sem tristeza hoje, sem depressão. O sentimento é outro, é o tédio.
Mas antes do tédio eu vou falar sobre a Barata com quem eu fiz amizade e comentei no ultimo post.

Não que a amizade com uma barata seja algo fora do comum, eu sou amigo de um boneco de Olinda, de um rato de laboratório que parece a Cassia Eller e de um panda, logo uma barata até que nem me espantou. Senta ai criançada, eu conto a história.


Então, ela se chama Maria Joaquina, quer dizer, isso é o que ela disse. Inteligente e boa gente, mas não é grande coisa não, tem uns três ou quatro centímetros só.
Conheci ela em um dia quente de verão taiwanês aqui mesmo em Yuli, no meu quarto. Eu já tinha visto ela na pia da cozinha comendo alguma coisa, mas eu conheci ela mesmo mesmo no meu quarto, mas vamos à história:
Eu estava encharcado de suor, chegando em casa, lá pelas cinco ou seis horas da tarde, vindo da escola. Guardei a Josefa na garagem como de costume, abri a porta da sala, tirei meu all star que está mais nojento que o cabelo do Zé, calcei meu chinelo e fui pro quarto... 
Minto! Minto! Fui pra cozinha, tomar uma água, ai sim eu subi pro quarto. 
Naquele fatídico momento no qual eu abri a porta e me prostrei diante dela, observei tal recinto de paredes brancas, janelas de blindex com cortinas que tem uma cor que lembra uma mistura estranha de green tea e creme, uma cama de casal com uma coberta do mickey e três travesseiros azuis, uma mala como guarda roupa e... Mijar! deu vontade de mijar, ai eu fui no banheiro ali do lado e mijei, simples não? 


Então, voltei pro quarto e lá estava ela, sentada na cômoda, do lado do pacote de Passatempo, com a boca lambuzada de chocolate, um cigarro entre os dedos, um copo de Taiwan Beer em uma mão, um leque em outra e um pedaço de bolacha Passatempo. 
Ela me olhou com aquela cara de barata e disse: "Que foi? Nunca viu uma barata não?" ai eu disse: "Ver eu vejo, aqui em taiwan então, nossa senhora, tem um monte, ali na frente de casa mesmo ontem eu contei umas doze, mais ou mesmos, tomando Chá verde." 
"Então, porque o espanto?", ela perguntou vendo a minha cara de: Whats going on?! Tipo a do menininho da propaganda da OBMEP. 
"Porque eu nunca falei com uma barata antes, já conversei com um papagaio uma vez mas com barata, nunca nunca." disse, enfatizando o verbo falar.
"É garoto, pra tudo na vida tem a primeira vez, certo? Mas tudo bem, não se encontram baratas como eu por aqui, as baratas daqui são muito burras, só querem saber de tomar chá e falar sobre tecnologia, computadores, armas nucleares, modinhas e rock. Eu prefiro conversar sobre política, musica clássica e literatura, talvez história ou algo do gênero, meu caro ser humano." disse ela com um ar um tanto quanto arrogante e eu já repeli dizendo 
"Ah, claro claro, você é uma barata cult, não é tão underground como as outras. Tudo bem então. Gostou da bolacha?"
"Sim sim, já comi melhores na Dinamarca, mas essa é gostosa, é brasileira né?" perguntou ela com uma cara de quem está mais interessada nisso do que o Bill Gates em saber se o Santos ganhou a libertadores. 
"Sim, e eu também." respondi, cheio de orgulho. 
"É claro que você também. Ou você acha que eu não sei distinguir o português brasileiro do português de Portugal? Olha garoto eu sou bacharel em Direito, pós graduada em ciências sociais, mestrada em ciências politicas e doutora em historia da arte. Só parei pra fazer um lanchinho aqui porque senti o cheiro do biscoito. Só parei pra passar tempo, entendeu a piada? Agora eu to indo, tenho muito a fazer. Pra todos os efeitos, meu nome em português é Maria Joaquina, prazer." disse isso já levantando e batendo o pó do seu vestido marrom "O prazer foi meu dona barata." Então, ela bateu as asas e saiu janela a fora, nunca mais a vi.