Esse é meu último dia aqui em Yuli, amanhã é meu último dia em Hualien e depois de amanhã meu último dia em Taiwan.
Eu hoje fiz aquilo que eu faço todo santo dia mas cada mínima coisa do meu dia-a-dia foi maximizada pelo fato de ser meu último dia aqui.
Tudo se tornou mais intenso de uma hora pra outra. O meu despertador - sim, não é um celular é um despertador, de pandinha - soou com mais força, os ovos que eu fritei pro café da manhã e o meu suco de uva feito na hora estavam mais gostosos, o meu computador ligou mais rápido, minhas tropas invadiram a base inimiga de forma mais devastadora, o som do meu violão saiu mais bonito.
O Taiwanês dos meus avós ficou mais compreensível, a minha mãe sorriu mais, minha host irmã ficou mais gostosa - não sei se isso é possível, mas ficou - o vento era mais fresco, a televisão tinha cores mais vivas, tudo era diferente, tudo tinha som de última vez.
E agora são sete e trinta e cinco da noite, meu violão repousa aqui na minha frente deitado na mesa com cara de cansado, o meu mouse está dentro da mochila junto ao carregador e a câmera de vídeo, as minhas costas doem depois de ter trazido às malas lá do segundo andar até aqui à sala e eu digo que não é fácil trazer vinte e oito quilos no braço não.
Há cinco minutos atrás eu estava com o violão no colo tocando "Keep holding on" da Avril Lavigne e no fundo no fundo eu podia ouvir a voz de todo mundo em um coro enorme dizendo: "Keep holding on, cause we know you'll make it through. Jus stay strong, cause you know we're here for you." é claro que eu fiz umas mudancinhas aqui e e ali pra encaixar melhor a frase, mas era isso ai.
Enquanto eu tocava e vocês, imaginariamente, cantavam eu podia ver várias das cenas do meu intercâmbio correr diante dos meus olhos. Desde os primeiros sueidjaos, o primeiro cagão em um banheiro de hotel, a cara dos meus host pais ao me verem, o meu vislumbre em saber que meu host pai era louco de pedra e ia nadar três quilômetros e atravessar um lago só por diversão e a impressão torta que eu tive dos meus irmãos serem viados.
Até hoje eu ainda lembro de cada coisa dos primeiros meses, das primeiras pessoas que eu conheci, do dia que eu encontrei o Guilherme e fiquei me perguntando se ele era Argentino ou Brasileiro, do dia que eu vi a Alice pela primeira vez na cozinha da escola, das minhas primeiras aulas, dos meus professores, tudo.
Agora tudo o que passou simplesmente vai ficar pra trás com pleonasmo e tudo e se dissipar no éter do tempo se tornando simplesmente; memórias.
E eu que era feliz ao correr com a minha bicicleta pela ciclovia ali do lado, eu que era feliz ao acordar sexta feira de manhã pensando em que prato eu iria cozinhar, eu que entrei besta pela primeira vez em um trem e fiquei admirado com tudo aquilo, e agora tudo vai ficar aqui e eu levo a falsa impressão de que o tempo aqui vai parar e esperar pela minha volta, a mesma impressão que eu tinha quando sai do Brasil.
Mas é agora que a mesa vira, é agora que a guitarra entra com seu solo distorcendo a música toda e fazendo o som dos violinos ficarem pra trás perdidos um algum compasso já contado.
Agora sim eu morro de novo ou nasço de novo, depende da interpretação de cada um. Agora eu retorno pra antiga vida e ai sim eu vou decidir se a minha vida vai seguir em linha reta com rotina e violinos ou se eu vou realmente ligar meu amp, conectar nele minha pedaleira invisível e distorcer os sois em las e os sis em dós nessa sinfonia satânica que me foi proposta.
E lá vamos nós de novo meus pequenos músicos...
Beijos beijos.
Lucas Casasco, agora, praticamente: Um brasileiro não mais em Taiwan.
O mais espantoso de tudo é terminar um texto desses e, depois de passar o corretor ortográfico, descobrir que só errei no português quatro vezes, sendo que duas delas foram quilo e quilômetro que eu tinha escrito kilo e kilômetro. E de pensar que a um ano atrás eu tinha pavor de português e achava o internetês a coisa mais linda do universo e agora eu repudio o segundo e acho o primeiro a coisa mais linda do universo.